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domingo, 9 de dezembro de 2012
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quarta-feira, 7 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
Sentir-pensar
Para o
pensador-poeta, não é necessário que haja um acontecimento trágico para
suscitar-lhe a reflexão. Nem lhe são necessários templos institucionalizados,
nem datas convencionadas para celebrar a vida.
Quem
tem alma de artista está conectado com a alma do mundo e sente suas alegrias,
suas dores, inquietações. Escuta seu lamento... seu grito... e seus silêncios.
O
sentir-pensar do poeta pulsa indelével pelo sentir-pensar de cada ser que
nasce, depois vai se replantando em versos para não morrer aos poucos em cada
ser que fenece.
E assim
o poeta vai urdindo versos
e tecendo
a mentira
que fia
a trama da verdade
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Perdoem-nos por tanta estupidez
Aos Guaranis Kaiouá, aos índios de todas as tribos
dizimadas pela ganância e pela truculência do homem dito civilizado, que prega
o crescimento econômico a qualquer preço.
Aos índios que foram jogados à beira
das rodovias, que vivem como escravos cortando cana numa terra que antes era
deles.
Aos índios que vivem marginalizados pelas ruas e esquinas de nossa bela
cidade, tentando sobreviver de artesanato:
Perdoem-nos por tanta estupidez!
*(...) Nas esquinas invisíveis do tempo, uma criança dormita ao colo da artesã indígena, sentada sobre as pedras frias da
calçada. Dorme, menino, dorme. Tua mãe acordada embala sonhos desnutridos.
Talvez mãe e filho sonhem que ainda estão na mata, alimentando-se da alegria dos
frutos da terra, banhando-se nus nas águas pagãs e cristalinas dos riachos, como
faziam seus ancestrais. Mas, há tempos, alcançou-os a estupidez e a ambição
predadora do homem civilizado e transformou-lhes os sonhos tribais em pesadelos
urbanos. Em nome do progresso, caciques brancos devastaram a mata e poluíram os
rios. Covardemente arrancaram os filhos da selva do regaço generoso da Mãe
Natureza e os transplantaram ali, numa esquina qualquer do descaso. Dorme,
menino, dorme. Assim e apenas assim, ainda podes sonhar com os sonhos que te
roubaram. (...)* Trecho do artigo "Invisíveis esquinas do tempo", postado em agosto/2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Nem tão doce, nem tão limpo
Pensando neste poema de Ferreira Gullar.
Pensando na reportagem a que assisti sobre os Guaranis Kaiowá.
Pensando no branco e doce açúcar que - embora eu não use - adoça a vida e o café de tanta gente.
Pensando no combustível limpo - de que o Brasil tanto se orgulha de produzir.
Pensando que o açúcar não é tão "doce" nem o álcool é tão "limpo", quando penso que álcool e açúcar vêm de muitos canaviais cultivados em terras que antes eram a mata dos índios...
O açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca.
Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
Ferreira Gullar
(Dentro da Noite Veloz, 1975)
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Praticando o gentilês
A
gentileza é uma língua semimorta.
Muitos
até a admiram, gostam de ouvi-la.
Mas são
raros os que a dominam: agem em gentilês.
A
estupidez humana alimenta-se do egoísmo, da prepotência,
da
pseudossuperioridade: da ignorância.
Quando
afrontada pela estupidez, tento ser gentil comigo mesma: silencio.
Mas isso é omitir-se! Sentencia a arrogância.
Silencio.
O mundo já tem ruídos demais.
Mas isso é omitir-se! Sentencia a arrogância.
Silencio.
O mundo já tem ruídos demais.
domingo, 16 de setembro de 2012
Para a aniversariante de hoje
Para Raquel Leidens
Para o mais belo presente que a Natureza me deu numa certa
manhã de setembro,hoje, nesta outra manhã de setembro, desejo de presente apenas a celebração de raros tesouros.
Desejo
que em meio aos tantos
projetos e conquistas profissionaisem meio à pressa, à espera e à angustia de uns e outros dias
amanheçam em tua vida muitos e serenos dias de primavera com sabor de fim de semana
Desejo
saúde plenaao nascer e findar de cada dia
a mesa e a vida sempre rodeadas de verdadeiros amigos
manhãs de domingo no parque
prazer dos pés descalços sentindo o carinho da grama
risos de crianças
canção de ninar
cara lambuzada de sorvete
canto de passarinhos
tardes de preguiça
boas histórias pra ouvir e contar
banho de chuva
cheiro de terra molhada
comer fruta no pé
caminhadas no meio do mato
mergulho num riacho de água cristalina
sombra aconchegante de árvores centenárias
êxtase de contemplar
finais de tarde de céu exibido
com pôr de sol de um lado
e lua prateada do outro
madrugadas quentes pra dormir ao luar
longas noites de inverno pra namorar
e ao som de chuva mesclando-se ao crepitar do fogo na lareira
entregar-se ao sono tranquilo dos que sentem dentro si
acima de qualquer medo
acima de todas as nuvens
a certeza de um céu sempre bordado de estrelas
a certeza de que todos os sonhos que sonha juntos amanhecem realidade...
Um brinde à Vida! Um brinde ao Amor! Saúde!
Obrigada por ter escolhido meu ventre como ponte para você
chegar a este mundo, numa certa manhã de setembro.Te amo! Sempre e incondicionalmente.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
coisificando-se
o mundo gira alucinado
em torno
de uma excitante vitrine de coisas
nossa boca enorme baba
diante delasinsana gula de possuí-las nos consome
enquanto mãos invisíveis nos moldam
para sermos objetos exibidos na mesma vitrine
as coisas nos engolem
pouco a pouco
uma boca insaciável nos
triturae vomita em série
seres coisificados
admirados e copiados por tolos semelhantes
seres-coisa
insuflados por deuses de barro
cultuados por ídolos ocos
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
As contas do tempo
Fim de tarde. Crepúsculo de mais um dia. Tanto
faz ser rei e rainha ou ser, simplesmente, João e Maria. O Sol nasce e se põe
para todos. E o fim de tarde desce as cortinas de
mais um dia.
Mais um ou menos um dia? Como entender o
paradoxo do tempo que acrescenta enquanto subtrai. Entre as contas do mais e do
menos, esvai-se o nosso tempo. Esvai-se inexoravelmente, escorrendo-nos pela
areia que o conta.
Para onde deslizam as águas do tempo-enquanto?
Quem sabe, escorrem e nos levam no ir-e-vir de suas ondas para os nunca antes
navegados mares-quando. Parece que estamos sempre à espera de um quando. Há tanta
gente que espera, até desesperadamente, um novo dia, um novo emprego, um novo
amor, um
novo lugar, um novo esperar, um novo tempo...
O que será o novo? Talvez seja apenas uma
roupa mais leve e suavemente colorida que fiamos com o desfiar dos dias.
Tecemos o novo enquanto sonhamos vesti-lo para dançar a música de um amanhã que
flutua sobre o intangível horizonte do tempo. E, ao nascer desse dia, quem sabe, ao som da
sinfonia das horas vestidas, celebre-se a nudez de tudo o que se viveu. Quem
sabe, então, apenas se brinde ao que, enfim, percebemos (re)novar-se, (re)avivar-se
em nós.
Talvez o novo seja apenas essa angústia
ancestral da eterna busca de nós mesmos, que camuflamos no desejo de algo que
ainda não alcançamos e que pensamos saber o que é.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
O valor das aparências
A aparência e a essência. A embalagem e o conteúdo. O que é belo? O que é feio? O que é ser alguém belo ou feio? Na foto, no espelho ou no olhar do outro, quem é belo? quem é feio?
Inteligência, caráter, sensibilidade e sabedoria posam para fotos? Ou só podem ser fotografados por quem tem olhos de ver o que o espelho e as lentes de uma câmera não captam? Que tipo de fotógrafo somos nós? O que revelamos de nós mesmos ao fotografarmos o outro?
Inteligência, caráter, sensibilidade e sabedoria posam para fotos? Ou só podem ser fotografados por quem tem olhos de ver o que o espelho e as lentes de uma câmera não captam? Que tipo de fotógrafo somos nós? O que revelamos de nós mesmos ao fotografarmos o outro?
São antigos e diários questionamentos meus e, por certo, de tantas outras pessoas também. Voltei a refletir sobre essas questões ao ler, hoje ao meio-dia, uma reportagem no site do Terra. Trata-se de um olhar sobre o olhar do povo britânico. E, no Brasil, é
diferente? Isso só ocorre nas redes sociais?
Eis o que diz a reportagem:
* “Ser inteligente não importa tanto quanto ser bonito no Facebook, aponta pesquisa com britânicos
Para usuários do Facebook no Reino Unido, sair bem na foto é mais importante do que parecer inteligente, diz pesquisa conduzida pela Intel na Europa, informa o site Daily Mail.
De acordo com o estudo da empresa, 56% dos entrevistados britânicos admitiram que se preocupam mais com a sua aparência física do que com sua desenvoltura intelectual no site de relacionamentos. O perfil, aponta o estudo, contraria outros países europeus.
A preocupação com a aparência leva 46% das mulheres e 20% dos homens entrevistados a publicar apenas fotos que os "favorecem" no site de relacionamento, mesmo que eventualmente elas não reflitam a realidade, diz o relatório. O britânico também mente para parecer mais inteligente, porém se esforça menos para impressionar do que nas fotografias, com 19% de informações falsas nos perfis das mulheres contra 12% dos homens.
"Novas tecnologias tendem a aumentar as contradições no nosso comportamento. Nós queremos tanto criar uma boa impressão nos nossos amigos quanto reclamar do excesso de informações (fúteis) nas redes. E leva tempo para equilibrar as coisas", opina a diretora de Pesquisa de Interação e Experiência da Intel, Genevieve Bell.
De acordo com a pesquisa, 59% dos homens e 56% das mulheres mentem no perfil para impressionar outros. Encontrar uma amizade ou um romance leva 40% dos homens e 51% das mulheres a apelarem para inverdades.
O estudo também indica que 89% dos usuários acreditam que os pais deveriam ensinar os filhos a etiqueta online, enquanto 45% das mulheres, e 34% dos homens admitirem que mentem no Facebook para encobrir suas inseguranças.”
* Texto retirado do site do Terra em 17/08/2012
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Invisíveis esquinas do tempo
Meio-dia. Doze horas. Intervalo. Hora do almoço. Hora de
parar um pouco para alguns, de andar mais depressa para outros. Hora de fazer
hora ou, simplesmente, hora de planejar as próximas horas. Espaço no tempo,
breve tempo cruzando o espaço apertado ou vazio da rotina.
O operário da obra da esquina parou para almoçar. Em que
pensa ele, enquanto saboreia honestamente o feijão e arroz de cada meio-dia? O
velho maltrapilho e sujo continua lá, à porta do mercado. Um tom suplicante de
fome e tédio ecoa em sua mão estendida. Em vão, vai tentando contar sua
história aos que esbarram nele com as mãos surdas, cheias de sacolas de compras,
e o olhar mudo de quem nem o vê.
Na próxima esquina,
uma criança dormita ao colo da artesã indígena, sentada sobre as pedras frias
da calçada. Dorme, menino, dorme. Tua mãe acordada embala sonhos desnutridos.
Talvez mãe e filho sonhem que ainda estão na mata, alimentando-se da alegria
dos frutos da terra, banhando-se nus nas águas pagãs e cristalinas dos riachos,
como faziam seus ancestrais. Mas, há tempos, alcançou-os a estupidez e a
ambição predadora do homem civilizado e transformou-lhes os sonhos tribais em
pesadelos urbanos. Em nome do progresso, caciques brancos devastaram a mata e
poluíram os rios. Covardemente arrancaram os filhos da selva do regaço generoso
da Mãe Natureza e os transplantaram ali, numa esquina qualquer do descaso. Dorme,
menino, dorme. Assim e apenas assim, ainda podes sonhar com os sonhos que te
roubaram.
Ao acaso da própria sorte, em outra esquina, está a velha
prostituta da rua central. Na hora do almoço, ela se serve, por quinze reais, a
um outro infeliz que deixou de almoçar para levá-la a um quarto fétido nos
fundos de um prédio semiabandonado. Bem perto dali, em qualquer esquina, na via
pública, à beira da estrada ou na boca dos morros, adolescentes sem
perspectivas de futuro vendem drogas ou vendem o corpo a qualquer um que possa pagá-los.
Não importa a origem do dinheiro. Pode vir de mãos calejadas, do furto
inconsequente ou do latrocínio. Pode vir das mãos lisas que ajeitam a gravata
italiana no colarinho branco, as mesmas mãos cheias de dedos que manipulam
contas de muitos dígitos em paraísos fiscais. Na banca de jornais de outra
esquina, mulheres siliconadas − quase ou totalmente nuas − estampam capas de revistas. Jornais
exibem, em páginas coloridas, manchetes de violência criminal.
Corrupção ativa e passiva, podridão moral das altas esferas ao submundo do
crime e escândalos na política nacional e internacional deixaram de causar o
espanto das manchetes, viraram rotina. Há sempre quem as leia e faça cara de
indignação. Mas, no dia seguinte, o jornal vai para o lixo ou vira papel para
embrulhar peixe na feira. Manchetes são descartáveis.
Faz tempo inventaram coisas descartáveis. A maioria nem é
biodegradável. E agora importaram o verbo
deletar. Gente também virou coisa deletável. Amigo
- a espécie rara cultivada durante anos - virou mera lista de contatos do
Orkut, Facebook, MSN e similares. Sim, muitos contatos são realmente de amigos,
familiares, companheiros de atividades culturais ou profissionais. Mas, agora, chama-se
também de amigo a qualquer nome - ilustrado por uma foto e um perfil
nem sempre verdadeiros - que qualquer um adiciona à sua lista de centenas de “amigos”
nas redes sociais. Contatos imediatos. Contatos superficiais em que amor e
amigo tornaram-se palavras vazias de sentimentos verdadeiros. Chamam também de
amor ao que pode ser apenas um relacionamento fortuito entre um homem e uma
mulher. Tudo pode começar com uma rápida investida visual num barzinho, numa
balada, na fila do restaurante ou numa sala de bate-papo virtual em pleno
meio-dia. E tudo pode acabar junto com a tarde ou noite de prazer. Sexo pelo
sexo. Momentos de prazer e nada mais. Muitos homens sempre fizeram isso. E
agora muitas mulheres também o fazem, pois está na moda ser uma mulher “bem-resolvida”.
Amor e amizade podem ser descartáveis. Viraram palavras ocas. Sensações
efêmeras. Nomes deletáveis. Simples assim.
Meio-dia. Hora do almoço. Misturando-se aos sabores que
exalam das cozinhas dos restaurantes, há um cheiro sombrio de decadência humana
rondando pelas esquinas invisíveis dos tempos, em plena luz do meio-dia. Mas
isso embrulha o estômago. Mais agradável olhar vitrines, entregar-se ao apelo
do consumo, coisificar-se. Comprar ideias e conceitos e vestir-se
inteiramente com eles, só porque estão na moda.
Meio-dia. Hora do almoço. Lá em outra esquina, o som
melancólico de uma flauta se mescla ao canto de aves que não conheço. Seriam os
pássaros da mata dos ancestrais da artesã indígena? Um casal de velhos caminha
de mãos dadas e sem pressa, admirando
uma revoada de pombos e esbarrando na multidão que não os vê. Ele a chama de
querida, e ela o trata por meu bem. Estão fora de moda. E são bem-resolvidos.
Mas isso e outros tantos outros assuntos não serão manchete no jornal de
amanhã. Possivelmente, às 11 horas e 30 minutos, Querida e Meu Bem almoçarão
tranquilos, enquanto o restaurante ainda estará quase vazio. E, logo depois,
talvez eu os reencontre, caminhando sem pressa e de mãos dadas, seguindo o som aconchegante
de uma flauta, em pleno meio-dia.
domingo, 12 de agosto de 2012
Pai
São tantas as
definições fora da simples palavra-dicionário. Há o pai presente, o omisso, o
desconhecido. Há o pai dos sonhos, pai amigo, pai-avô, pai super-herói... Há
pai de todo tipo. Cada filho ou filha tem sua definição para o pai que tem,
para o pai que não teve, para o pai que desejaria ter, para o pai que sempre
terá.
E porque meu pai nunca
partiu de mim, releio o poema outra vez. De alguma forma, ele sempre me escuta
quando ouço em minha lembrança a sinfonia do vento embalando a dança dos
trigais dourados. Outras vezes, ele me ouve quando olho as estrelas e a Lua,
silenciosamente, como ele e eu as comtemplávamos juntos nas noites e madrugadas
da minha infância...
viagem
ao meu pai Aristides
tantas vezes embarco no
trem da lembrança
desembarco na estação
da infância
transbordo-me numa
saudade insólita
vera vontade de ser em
tudo
apenas uma criança
de muito no mundo
melhor seria
nunca ter
tanta ciência
ah! embarcar no trem da
lembrança
fugir do
tempo-vento-desalento
rolar na grama do tempo
antigo
adormecer em teus
braços cansados
fitar em teu rosto
fatigado
a paz do teu silêncio
amigo
correr pelas manhãs tão
madrugadas
sentindo em minha mão
pequena
a tua mão áspera e
calejada
caminhar nos caminhos
antes do sol
pisando a erva
orvalhada
escutar teus passos
descalços
traçando um digno
destino
no sonho suado de cada
jornada
tantas vezes embarco no
trem da lembrança
tento seguir-te na
minha viagem
busco tua força
tua doce alegria
tua sempre-coragem
de renascer a cada dia
aprendo a decifrar tuas
humildes palavras
tão repletas de
sabedoria
ah! tanto eu queria
seguir teu caminho
ser um pouco a tua
bagagem
mas perdoa
meus tropeços
meus espinhos
se eu me perco dos teus
rastros
quando embarco sem
destino
no barco louco dos meus
desatinos
*Versos do poema Viagem - publicado, originalmente, em 1985
e ilustrado em cartão/poema em 1996.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
silêncio dos lírios
o que me dizem
os lírios do campo de
outrora?
não sei
como poderia sabê-los?
não os vi
nem reguei
nem sequer teci as
vestes do rei
que jamais se vestiu
como um deles
o falar das flores do
agora
flores sem nome e sem
glória
despertas no tempo em
que me busco insone
fascina-me portanto
a inquietude noturna
dos lírios da minha sala
que anonimamente me
ensinam
a entender-me na
historia que ouvem
escutando os turvos
silêncios meus
só pra dizer que falei das flores
poemas inéditos
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Divagando
Faço parte daquele
grupo de pessoas que ficam dias sem ligar a televisão. E, como meus amigos mais
próximos sabem disso, volta e meia um deles me telefona pra avisar que, em tal
dia e canal, vai passar um filme ou uma reportagem que eu gostaria de ver.
Num dia qualquer da
semana passada, liguei a TV e a deixei sem som, enquanto aguardava o início de
um programa a que eu pretendia assistir. Assim que aperto o botão power do controle
remoto, surge na tela a imagem de uma charrete puxada por um cavalo branco que
seguia vagarosamente por um caminho de terra. Ao lado do cocheiro, uma criança
radiante de felicidade acenava para alguém, como se estivesse partindo para uma
viagem ao mundo de sonhos. E talvez estivesse.
Sucessivas cenas de uma
paisagem campesina dão a entender que se trata de uma reportagem sobre turismo
rural. Não me interesso em aumentar o volume da TV para ouvir o que estão
dizendo. Apenas emolduro o instante do quadro da charrete e o andar vagaroso do
cavalo, como se quisesse resgatar esse quadro da parede da lembrança de tempos
sem pressa e sem tanta tecnologia.
Num passado bem
recente, mas que parece muito, muito distante, os tempos andavam devagar. Até
que o homem, na ânsia de ser senhor do tempo, inventou a velocidade e tornou-se
escravo dela. Hoje vivemos em compasso de urgência. Tudo tem que ser veloz,
muito veloz. Temos que ser velozes (e furiosos?). Tudo tem que ficar pronto
para ontem. O prazer da espera tornou-se a tortura do atraso. Não temos mais
paciência para esperar por nada. Temos pressa de chegar. Aonde mesmo?
Um pensamento com
cheiro de terra molhada pela chuva exala da minha memória, desenha-se nas cores
de um arco-íris e flutua ao lado da criança que acena de cima de uma charrete.
Talvez a menina desembarque no meio do caminho, quando o cavalo branco parar diante
de um vasto campo verde. Lá, quem sabe, ainda esteja um homem de rosto sereno,
olhando, embevecido, aquela paisagem. Talvez ela pergunte ao homem se aquela
vegetação é grama e por que é mais alta que a grama do jardim do condomínio
onde ela mora, e se não está na hora de cortar, e quem a plantou ali onde não
mora ninguém, e por quê? Talvez o homem que nunca morou num condomínio responda
alegremente que aquele capim verde é pão. Pão?! A menina da charrete perguntará
com espanto. Ah, tio, pão a gente compra na padaria ou no supermercado. Não
estou vendo nenhum pão no meio dessa grama alta! É que o pão ainda não está
maduro, menina. E a criança que tem pressa lhe pergunta se essa coisa de ficar
maduro vai demorar muito tempo. O homem que traz no semblante a serena
sabedoria de quem já plantou, colheu e amassou o pão que levou à mesa de sua
família durante uma vida inteira, calmamente, olha para o trigal ainda verde e,
depois, com a voz sussurrada de quem vai contar um valioso segredo, volta-se
para a menina e diz: o tempo necessário.
Quem sabe a menina não
lhe dê ouvidos e siga adiante com pressa. Quem sabe ela queira saber que
história é essa de tempo necessário e o que acontece enquanto se espera que ele
passe. Quem sabe, depois de uma longa e lenta conversa entremeada de espanto e
alegria, a menina queira voltar ali para ouvir a canção do vento balançando o
trigal dourado, anunciando que o trigo está maduro, que os grãos podem ser
colhidos e que, só depois disso, serão moídos e transformados em farinha, que
se transformará em pão, biscoitos, bolos, massas e muitos outros alimentos –
que não nascem prontos na padaria nem nos supermercados, nem nos restaurantes.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Sombra do branco
Na
tela do computador, há tempos me assombra a sombra de uma folha de papel em
branco. Pensamentos soltos perambulam pela página vazia. Alguns a tocam, mas
logo levantam voo. Exaustos de planar sobre a areia movediça das reticências,
para onde irão?
Faz
frio. Chuva fina da manhã deixou-me um olá sussurrado em gotículas no vidro da
janela do meu quarto. Efeito orvalho na flor de pétalas transparentes. As
flores de vidro não sentem frio. Ou sentem? Por onde vagueia o pensamento das
flores enquanto o vento gelado balança o sono das hastes que embalam seus
sonhos?
Pequenas
margaridas plantadas em um vaso de plástico pediram-me que as trouxesse para
minha casa. No último sábado, meu pensamento esbarrou com o pensamento delas
enquanto eu caminhava distraída em meio às tendas do mercado.
Fascina-me
o mistério do silêncio dos lírios. Encanta-me a elegância das tulipas. No
entanto, as pequeninas e singelas margaridas sabem que lhes devoto um amor
singular. E, talvez, pelo pacto secreto desse afeto implícito, elas me
encontraram no sábado porque desejavam estar aqui, no árido momento da folha em
branco. Margaridas são como a música que acolhe os pensamentos que as palavras
não capturam...
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